Uma professora de matemática a falar de saúde mental...

Foi-me colocado o desafio para participar numa mesa redonda sobre este grande tema da Saúde Mental, no Concelho de Espinho. Parei algum tempo para pensar como poderia enriquecer com a minha experiência. E ontem lá estive perante um grupo essencialmente jovem a assistir, a ouvir e a partilhar ideias muito interessantes.
O tempo que paramos para pensar um tema como este é sempre tempo de qualidade.
Foi um gosto... e partilho com todos algumas ideias que me ocorreram na preparação deste tema e que me parece fazerem todo o sentido para pensarmos sobre elas.


Quando pensamos em saúde mental na educação, pensamos muitas vezes em ansiedade, bullying, depressão, excesso de trabalho, dificuldades emocionais… e, naturalmente, precisamos de falar sobre tudo isso.
Mas antes de entrarmos aí…
Afinal, o que é ter saúde mental?
É ser o melhor em tudo?
É ter boas notas a tudo?
É ser sempre o primeiro?
É ter sempre as respostas para as perguntas e para as dúvidas?
É saber sempre qual é o caminho certo a escolher?
É fazer apenas aquilo de que gostamos, com as pessoas com quem nos identificamos?
É ter uma vida sem dificuldades?
É ter apenas dias felizes, leves e cheios de coisas divertidas?
Ou será que ter saúde mental também é conseguir lidar com o facto de que, às vezes, muitas vezes, não sermos os melhores?
Que podemos chegar depois dos outros?
Que podemos não saber a resposta?
Que podemos escolher um caminho e perceber, mais tarde, que não era aquele?
Que podemos fazer coisas de que não gostamos, estar com pessoas com quem não nos identificamos e, ainda assim, conseguir lidar com essas situações?
Que podemos ter dias maus?
Que podemos sentir tristeza, medo, frustração, raiva ou ansiedade… sem que isso signifique necessariamente que alguma coisa está mal connosco?
Talvez saúde mental não seja a ausência de dificuldades.
Talvez seja, em grande parte, termos ferramentas para lidar com elas.
E é aqui que eu gostaria de trazer a minha experiência enquanto professora e enquanto mãe.
Porque, quando olho para aquilo que acontece todos os dias numa sala de aula, percebo que há competências que estamos a ensinar — ou que podemos ensinar — que vão muito para além da disciplina.
Sou professora. Sou mãe, a minha filha mais velha já está com 21 anos e o meu rapaz a caminho dos 16 anos. E, há quase dez anos, neste meu projeto que denominei Conversar com as Famílias procuro ajudar os pais a entenderem que há competências que farão toda a diferença na sala de aula de matemática, em particular, mas no geral na escola e globalmente na vida de todos os dias dos nossos filhos.
Que competências podemos ajudar os nossos filhos a desenvolver hoje que farão diferença na forma como vão aprender, relacionar-se e enfrentar as dificuldades amanhã?
E há uma coisa que a minha experiência como professora me mostra todos os dias:
muitas das competências de que precisamos para aprender Matemática são também competências que precisamos para a vida e há muitos pontos comuns ao equilíbrio necessário desta questão tão importante da saúde mental.
Pensemos, por exemplo, no erro.
Na Matemática, errar é inevitável.
Mas há alunos que, perante um erro, pensam:
“Enganei-me. Vou perceber onde.”
E há outros que pensam:
“Eu não consigo. Não sou bom a Matemática.”
O resultado matemático pode ser exatamente o mesmo.
Mas aquilo que acontece dentro da cabeça daquele aluno é completamente diferente.
E é aqui que, para mim, começa uma parte importante da conversa sobre saúde mental.
Que relação estamos a ensinar os nossos filhos a ter com o erro?
Estamos a ensinar-lhes que errar significa não ser capaz?
Ou estamos a ajudá-los a perceber que o erro é informação, é uma oportunidade para perceber o que ainda não sabem?
Há outra competência que considero fundamental: a tolerância à frustração.
Há problemas que não se resolvem à primeira.
Há conteúdos que não se compreendem imediatamente.
Há dias em que estamos cansados e parece que nada funciona.
E talvez uma das coisas mais importantes que podemos ensinar aos nossos filhos seja trocar o “não consigo” por um “preciso de ajuda” ou simplesmente incluir uma palavra e dizer “AINDA não consigo”.
Esta pequena palavra — ainda — pode fazer uma diferença enorme.
E depois há uma terceira competência: saber pedir ajuda.
Também aqui há uma questão de saúde mental.
Um aluno que não sabe e pede ajuda está a desenvolver uma competência.
Um aluno que não sabe e tem vergonha de perguntar, de colocar o dedo no ar, pode começar a esconder a dificuldade.
E, muitas vezes, aquilo que começa como uma dificuldade numa disciplina transforma-se numa ideia sobre a própria pessoa:
“Eu sou mau a Matemática.”
“Eu não sou inteligente.”
“Os outros conseguem e eu não.”
E isto já não é apenas Matemática.
É autoestima.
É confiança.
É identidade.
É por isso que, quando converso com as famílias, sugiro pequenas mudanças nas perguntas que fazemos aos nossos filhos.
Em vez de perguntarmos apenas: “Tiveste boa nota?”
podemos perguntar: “O que aprendeste?” “Percebeste o que fizeste mal?”
Em vez de: “Queres que eu faça por ti?”
podemos perguntar: “O que já tentaste?”
E, perante um erro, em vez de imediatamente corrigirmos, podemos perguntar:
“O que achas que aconteceu aqui?”, “Consegues encontrar o teu erro?” ou “Como podemos melhorar?”
Parece pouco.
Mas são perguntas que devolvem ao jovem uma coisa muito importante:
a sensação de que é capaz de pensar, tentar, falhar, voltar atrás e tentar novamente.
Dizer a um professor que deve ensinar conteúdos, avaliar, diferenciar, acompanhar, motivar, trabalhar competências emocionais, envolver as famílias e ainda estar atento à saúde mental de cada aluno é muito diferente de lhe dar tempo, formação, recursos e condições para o fazer.
Tem de ser uma responsabilidade partilhada.
Entre escola, família, profissionais de saúde, comunidade e políticas públicas.
E termino com uma ideia que, para mim, resume aquilo em que acredito.
Não devemos esperar que os nossos filhos tenham um problema para começarmos a ensiná-los a lidar com as dificuldades.
Podemos começar muito antes.
Quando os ensinamos a lidar com um erro.
Quando lhes permitimos experimentar uma dificuldade sem imediatamente a resolver por eles.
Quando lhes ensinamos a pedir ajuda.
Quando os ajudamos a reconhecer as suas emoções.
Quando lhes mostramos que o valor deles não depende de uma nota nem da aprovação dos amigos.
E quando lhes dizemos:
“Eu não espero que consigas sempre. Espero que saibas o que fazer quando não consegues.
Porque talvez seja essa uma das maiores competências que podemos oferecer aos nossos filhos, não a garantia de que a vida será fácil, mas a confiança de que eles terão ferramentas para enfrentar aquilo que não for.
Um bom fim de semana
Inês Cruz
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